Rebeca Ramos
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Meu relato pessoal como mediadora em um projeto educacional

Um relato sobre mediação de crianças neurodivergentes no Projeto Vincular, com aprendizados sobre inclusão, vínculo, arte e desenvolvimento.

Rebeca RamosPublicado em

Trajetória e Contexto Inicial

A trajetória no Projeto Vincular teve início em 2024, abrangendo a passagem por diferentes espaços como fotografia, ateliê, teatro, desenho e música. Cada ambiente apresentou propostas distintas voltadas ao desenvolvimento das potencialidades infantis. Entre 2024 e 2025, o trabalho incluiu a participação em saídas culturais para museus em Fortaleza, acompanhando grupos para promover o acesso à cultura e à arte.

O foco central deste relato concentra-se na mediação realizada em duas frentes específicas: a prática de judô e as sessões de contação de histórias.

Mediação no Contexto do Judô e Desenvolvimento Sensoriomotor

Durante o acompanhamento de um grupo de crianças em uma turma nova, observou-se um perfil com necessidade de movimentação e estímulos sensoriais. O início do processo revelou interações complexas, onde o contacto físico ocorria de forma desordenada.

As principais barreiras identificadas incluíram comportamentos de bater, chutar e empurrar os colegas. Essas ações frequentemente ocorriam em momentos de desregulação emocional, crises ou diante da imposição de limites e negativas. O desafio exigiu uma compreensão profunda sobre neurodiversidade e o contexto social dos envolvidos para converter o comportamento impulsivo em participação ativa.

A intervenção baseou-se na observação das habilidades individuais e coletivas. Foram realizados testes com diversos recursos para identificar os interesses específicos de cada criança. O apoio dos familiares foi fundamental para compreender as preferências de cada participante. Com o tempo, a dinâmica transformou-se: o grupo, que antes preferia o isolamento e apresentava conflitos pela posse de objetos, passou a interagir de forma cooperativa. Houve uma redução significativa em agressões físicas e verbais, dando lugar ao respeito mútuo, à espera da vez e ao compartilhamento.

Adaptação e Mediação na Contação de Histórias

A experiência na sala de contação de histórias envolveu um período de transição e adaptação para as crianças e para a equipa de mediação. O processo de acolhimento de novos integrantes exigiu flexibilidade para lidar com o tempo de cada criança neurodivergente ao se deparar com novos ambientes e figuras de referência.

O principal obstáculo residiu na quebra de rotina e na resistência inicial de algumas crianças em relação ao objeto livro. A adaptação ao cronograma de atividades exigiu um manejo cuidadoso, pois a chegada ao ambiente novo muitas vezes gerava episódios de desregulação emocional e comportamental.

A estratégia adotada priorizou a construção de vínculos de confiança e a flexibilidade no cronograma. Em vez de suprimir atividades, ajustou-se o momento de iniciá-las conforme o estado emocional e cognitivo do grupo. O acolhimento e o respeito às particularidades permitiram que as crianças, tanto verbais quanto não verbais, passassem a seguir a rotina e a participar ativamente das narrativas, assumindo papéis de personagens e interagindo com as histórias propostas.

Inclusão em Espaços Culturais e Patrimoniais

A inclusão de crianças neurodivergentes nos equipamentos culturais de Fortaleza é um pilar essencial para a construção da identidade e autonomia. A mediação em visitas a museus e centros culturais permitiu que as crianças ocupassem espaços públicos como cidadãs e artistas.

Nos passeios, o conhecimento teórico sobre fotografia e artes visuais transformou-se em vivência prática. As crianças exploraram os museus, interagiram com as obras e socializaram com colegas de diferentes grupos. Essa experiência proporcionou aos familiares uma mudança de perspectiva, permitindo observar as capacidades de aprendizagem e a liberdade de expressão. O lazer e o tempo de qualidade foram reafirmados como direitos fundamentais para o desenvolvimento da infância e para o fortalecimento do sentimento de pertença à cidade.

Considerações sobre o Brincar e a Psicologia

O processo de mediação demonstrou que o brincar livre é essencial para o desenvolvimento da criatividade e da capacidade imaginativa. Observou-se que o excesso de exposição a ecrãs pode limitar o desenvolvimento cognitivo e motor devido à busca por recompensas rápidas.

A evolução das crianças, que inicialmente ocupavam o mesmo espaço sem interagir e passaram a brincar juntas de forma colaborativa, evidencia que a inteligência emocional está intrinsecamente ligada à habilidade de socialização. O trabalho conjunto entre mediadores, professores e famílias permitiu um olhar que transcende diagnósticos, focando na potencialidade e no respeito à singularidade de cada criança.

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